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Minhas roupas têm nomes próprios

Algumas das minhas roupas têm nomes próprios.
Tenho o casaco que se chama David, uma homenagem ao Bowie. Oncinha Daltônica é um vestido. Uma coleção de casacos é carinhosamente chamada de Chewies, porque remetem ao Chewbacca, personagem do Guerra nas Estrelas. Uma blusa que se chama Hotel Transilvânia por causa da animação. Amy Farah Fowler, a namorada do Sheldon Copper na série Big Bang Theory, virou nome de saia, e por aí vai. Por que elas têm nomes ? Porque pra mim são mais do que paninhos. Se considero as roupas uma forma de expressão, por que elas não teriam nomes ?
Nomear as peças é ressignificá-las, colocando nelas o meu universo de referências e sentimentos, que nem sempre estão relacionadas à moda. Me vestir não é um processo aleatório ou automático para cumprir com obrigações sociais. É algo que, pra mim, tem a ver com me comunicar, e nomeá-las é como aprofundar meu diálogo comigo mesma, onde manifesto meus pensamentos e desejos. Também me comunico com elas, troco olhares, bato um papo, dou uns abraços. Por mais insano que pareça, elas parecem corresponder e me contam onde querem ir. O blazer Rainha de Copas, quando veio pro meu armário, me disse que estava cansado de ir pra casamentos e bar mitzvahs, então o levei pra um show de rock e ele ficou muito feliz. Talvez este seja o meu lado Calvin que enxerga roupas como um Haroldo.
Escrevendo sobre tudo isso, só consigo lembrar de Manoel de Barros:
“O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho o nome empobreceu a imagem”
Eu amo a moda, mas meu mundo e a minha relação com as roupas é muito mais que o mercado me apresenta, é a soma de tudo o que já vivi. E assim, conforme vou vivendo, adiciono camadas e mais camadas de referências.
Considero roupas uma pele extra, sobre a qual tenho total controle e quero usá-la para me representar. A curadoria do que coloco sobre o corpo é criteriosa como as palavras que uso, a comida que me alimenta, os filmes que vejo, os livros que leio. Gosto de exercer curadoria no que consumo, e acredito que isso se reflete no que exalo.

Este artigo tem 1 comentário

  1. Eridan

    Ana, penso como vc nesse belo texto. Vc definiu bem o que faço todos os dias ao escolher uma roupa. Converso com as peças escolhidas. Sempre sei quando a combinação é inédita e comento: vocês ainda não se encontraram. Tenho muito prazer em vestir o que me faz bem. Gosto muito de seus textos.

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