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Eu não tenho roupa

Eu devo falar essa frase há décadas. No início deste ano eu atravessei o Rio de Janeiro atrás de biquínis neon (de um modelo que eu não gosto) apenas porque estavam na promoção numa determinada loja. Num momento de impulso comprei não apenas um, mas CINCO PARES. Adivinhem? No dia seguinte eu já estava frustrada da compra e, dos cinco pares de biquínis, usei apenas um. Meses depois eu vi uma mulher comum, como você e eu, não-blogueira, sem recebidos, se desafiando a ficar sem compras por 150 dias. Embarquei na idéia.

Nesse processo, que eu julguei inicialmente ser apenas sobre roupas, pensei que não agüentaria chegar até o fim de 5, quase 6 meses sem comprar roupas, sapatos, bolsas, acessórios e… biquinis. Eu comprava mesmo sem precisar. Alguns dias passaram rápido, outros não. Descobri um armário lotado de roupas e uma mulher que não sabia multiplicar. Passei a registrar tudo que vestia através de fotos, busquei inspirações na internet e comecei a me questionar e dar mais atenção aos tecidos, cores, caimento e conforto. E fiz uma lista de peças que eu sentia falta e, ao final, eu tinha um total de 9 itens desejados – apenas.

E, pra não dizer que fiquei todo esse tempo sem nada novo eu tive alguns ‘pulos’: herdei algumas peças da minha mãe, troquei roupa em brechó de troca, ganhei um vestido de aniversário da minha loja queridinha e troquei uma peça com etiqueta guardada no armário por outra que já saí usando.

Em 150 dias eu doei, vendi, ajustei na costureira e me descadastrei de e-mails de lojas. Comecei a ler sobre armário cápsula, sobre reciclagem têxtil e vida útil das roupas, consumo exagerado, trabalho escravo. “Pra onde vai todo esse tecido? Vira lixo? Então o meu dinheiro também”. Descobrir que não há um programa de reciclagem têxtil eficiente no Brasil e que as sobras de tecido se acumulam em lixões a cada nova compra me impactou profundamente. E, claro, meu dinheiro não é lixo. Eu lia, refletia e o conhecimento foi um bom combustível em momentos de desejo por novidades.

Uma das minhas primeiras lembranças de contato com moda lá na década de 80 é de quando meus pais compravam roupas para minhas Barbies na feirinha de Teresópolis e o grande lance era a ‘trocação’ de roupa da boneca. Pula pra 2019. Não era a roupa nova que eu desejava, era a sensação de prazer, beleza e o falso empoderamento que isso me dava.

Quando essa chave virou outras coisas começaram a fazer sentido… que empoderamento é esse que eu preciso me vestir sempre com algo novo pra ser bem vista? Minha ‘interessância’ se resume apenas ao que eu visto? Que lugar é esse que estou me colocando? Eu levei pra minha terapia essas questionamentos pra que hoje eu aceite que sim, quero me sentir bonita com o que visto e também quero me sentir empoderada, desta vez pelo que penso. Posso vestir o que eu quiser e como eu quiser e não é SÓ isso que vai me fazer sentir empoderada, eu sou um todo. Eu sou o que visto, o que penso e como me comporto.

Hoje uma compra tem que fazer sentido pra mim e combinar com meu jeito e meu armário (aka biquínis do inicio do texto). Eu aprendi a multiplicar e pensar antes de comprar. Não quero mais alimentar uma indústria desenfreada de consumo de roupas ou comprar só porque está na promoção. Hoje eu coleciono experiências.

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